quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Hipernestre e Zuzu Angel - duas histórias e uma só busca: JUSTIÇA




Por Mabel Dias

O que estas duas mulheres têm em comum? A história de Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, estilista brasileira morta pela ditadura militar em 1975, é sabida pela maioria das/os brasileira/os, principalmente depois do filme que tem seu nome como titulo.
Já a história de Hipernestre Carneiro só foi conhecida este ano, quando sua filha de 22 anos, Aryane Thais, foi assassinada em abril, e seu corpo largado na BR 230, em João Pessoa. Chico Buarque na música “Angélica” ,composta para Zuzu, já perguntava: “Quem é esta mulher que chora sempre este lamento?” E agora, eu pergunto: quem são estas mulheres? São duas guerreiras que perderam seus filhos/filha de maneira brutal e que retiraram da dor a força para lutar por Justiça.
A luta de Zuzu Angel, que enfrentou os militares brasileiros em plena ditadura, exigindo reaver o corpo de seu filho, Stuart Angel, que foi capturado pela Marinha, morto, e teve o corpo jogado ao mar. Nunca os militares deram noticias a Zuzu sobre o que tinha acontecido com Stuart. Só alguns anos depois, um militar que havia saído da Marinha procurou o advogado dela e revelou toda a verdade. A partir daí, Zuzu arregaçou as mangas e começou a denunciar o que havia acontecido com seu filho e juntou todas as provas que pode para poder denunciar à Anistia Internacional o que os militares tinham feito com Stuart Angel. No filme, entre inúmeras cenas emocionantes, há uma que ela está dentro do avião, voltando dos Estados Unidos e pega o microfone da aeromoça para falar com os demais passageiros sobre o que a ditadura militar está fazendo no Brasil e que seu filho foi uma das vitimas do regime. Este ato fez com que ela fosse intimada à Marinha, sendo chamada a atenção para que ficasse calada ou isto lhe custaria à vida. E de fato, custou.
A mesma determinação que tinha Zuzu Angel tem Hipernestre Carneiro. Em agosto, ela participou de uma sessão especial na Assembléia Legislativa da Paraíba, que tratava da violência contra a mulher no estado. Ela se tornou um símbolo das famílias paraibanas que perderam filhas, mães, tias, irmãs, primas, e que vem exigindo Justiça para os crimes que acometem dezenas de mulheres na Paraíba. Durante a sessão, Hipernestre explicou de onde ela conseguiu tanta força para participar de atos de combate a violência contra a mulher, dar entrevistas e até ir a São Paulo participar de uma atividade que também tratava da violência contra as mulheres naquele estado. Desde a morte de Aryane, que ela procurou entidades feministas de João Pessoa e se engajou na luta de combate a violência de gênero. Durante a sessão na Assembléia, Hipernestre estava vestida com uma camisa que tinha a bandeira da Paraíba e a foto de sua filha. Ela disse que esta camisa, entre tantas outras que mandou fazer, havia se tornado uma farda e que por toda a cidade ela iria, mesmo que sozinha, espalhar cartazes com a foto de Aryane para que a sociedade nunca esquecesse o que aconteceu com ela e que soubesse que o assassino de sua filha continuava livre, assim como panfletos contando o que havia acontecido com Aryane. A mesma atitude teve Zuzu Angel quando distribuiu para a sociedade carioca, e até para o presidente Médici (que governava o país quando Stuart desapareceu) várias cartas, contando o desaparecimento de seu filho e as brutalidades que a ditadura vinha cometendo no país.
A história destas mulheres que agora, mais do que nunca, sabemos quem são e o que representam para a luta das mulheres no Brasil acontecem em períodos e contextos distintos, mas ilustram a determinação que elas têm de ir até o fim, sem medir esforços, ainda chorando a morte dos filhos, acreditando na Justiça (não falo justiça no sentido de Judiciário), mesmo que as adversidades venham e que a Justiça aconteça de maneira tardia. Infelizmente, Zuzu foi assassinada por apenas querer a verdade, por querer embalar seu filho, como dizia Chico Buarque na música. E Hipernestre continua sua luta, chorando seu lamento de maneira seqüencial, mas com fibra e apoio de tantas outras mulheres que se solidarizam com sua história. Agora ela espera pela próxima audiência do acusado de matar sua filha, o estudante de Direito, Luiz Paes Neto.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ética na comunicação


Por Mabel Dias


Foi realizado em São Paulo, nesta semana, o seminário “A liberdade de imprensa e a ética na comunicação”. A iniciativa é do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, através de sua Comissão de ética.
De acordo com Denise Fon, uma das integrantes da Comissão de Ética do Sindicato paulista, a quantidade de denúncias que chega a entidade contra os jornalistas é alarmante, passando por abordagens preconceituosas, pré-julgamentos e apelos à execração pública.
Algumas destas denúncias, conforme Denise, são direcionadas àqueles/as que não são jornalistas, mas “fazedores” de notícias, que começaram a surgir desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que para exercer a profissão de jornalista não se precisa do diploma e que qualquer um/a pode ser jornalista. E desde então, a qualidade do profissional de imprensa caiu muito e com isto os direitos e a valorização da categoria também. Se antes já havia muitos que se diziam jornalistas porque faziam um curso de rádio e TV ou sabiam diagramar um jornal, agora, então, tornou-se ainda mais fácil conseguir um emprego de jornalista e emitir uma carteirinha entre diretores de sindicatos que estão nos cargos apenas para garantir o seu quinhão.
O secretário do Interior e Litoral do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Alcimir Carmo, aponta que é na televisão que se assiste ao maior número de casos de flagrante desrespeito aos direitos humanos, direitos de cidadãos, e até linchamentos morais, em programas os mais diversos nas emissoras de TV, tanto na Capital quanto no interior de São Paulo. A realidade de São Paulo não é diferente da do restante do país.
Aqui na Paraíba, seja na TV, no rádio ou no jornal, podemos conferir diversos programas/matérias que encaram os problemas sociais como caso de polícia, e fazem um verdadeiro tribunal midiático, expondo as pessoas à execração pública, como bem atestam as/os companheiras/os do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. O que se passa em São Paulo é a realidade do que vemos aqui na Paraíba.
A exposição de cadáveres, a busca por histórias grotescas e de onde se possa “extrair sangue” para atrair o público, além da exposição do corpo da mulher como mercadoria, fazem parte da pauta daqueles veículos de comunicação que há muito perderam o interesse em fazer um jornalismo ético, e comprometido em informar de fato. O interesse passa apenas pelo lucro e nos índices de audiência.
Diante deste quadro quase aterrador que passa o jornalismo brasileiro, iniciativas como esta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo são mais do que louváveis e devem ser reproduzidas pelo Brasil. Precisamos cada vez mais incentivar eventos como este e traçar meios de combate ao que nos empurram como jornalismo, e que só faz prestar um mal serviço de comunicação à sociedade. Nós, jornalistas, fazemos parte da sociedade, e junto com ela, precisamos exercer o controle social da mídia, fiscalizá-la, e fazer com que se produza programas com conteúdo qualificado e que digam respeito aos reais interesses da população. Afinal, somos comunicadores SOCIAIS.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Dez anos do assassinato de Sandra Gomide


Por Rachel Moreno

Já imaginaram se a Sakineh se exilar no Brasil e arranjar um namorado tipo o jornalista Pimenta Neves? - perguntou um amigo...
É, a violência contra as mulheres não é privilégio do Irã, se conclui por seu raciocínio...

Se Sakineh namorar com o jornalista Pimenta Neves, ela se arrisca a levar um, ou talvez uns dois ou três tiros.
Mas não pedrada... por aqui, somos mais "civilizados"...
De vez em quando, tem até quem jogue um pedaço do corpo da mulher da qual quer se livrar, aos cães, num respeito à pirâmide
alimentar - aos cães de estimação, os restos que não mais queremos comer, como petisco especial...

Agora cá prá nós, nem pedrada, nem violência, nem impunidade!!!...
A mídia, desde os tempos do SOS Mulher, sempre se deliciou com noticias do tipo "se torcer, sai sangue".
E agora tentam ao máximo tirar algum dividendo político da atitude do Lula (que teriam criticado se nada tivesse feito),
e da previsível negativa do Irã - já pensou onde eles iriam parar se atendessem a este pedido?! A cada caso, algum país se mobilizaria
para receber a "infiel" e aí, onde ficam os hábitos? Os costumes? O respeito à diversidade cultural?

Sem chegar a este patamar de barbárie, lembro de uma africana, constrangida com a reação do ocidente diante da excisão do clitoris
a que são submetidas - a frio - as jovens africanas, e se dizendo igualmente espantada ante a naturalidade com que as ocidentais "cortam na própria
carne" (fazendo cirurgia plástica), sem ao menos uma motivação cultural...

Hoje eu vi o anúncio da nova Barbie (a bonequinha) com implante de seios de silicone, para meninas a partir de 4 anos,
com os dizeres "just like mom's" (iguaizinhos aos da mamãe)... (re-transmitido na rede pela Rosa de Lourdes)

Claro, nada que se compare a assassinatos ou "justiçamentos". Apenas uma violência mais sutil...

Puniçao ao assassino de Sandra Gomide, que permanece livre. leve e solto!

Vêm-me à cabeça as palavras de ordem de há mais de 30 anos atrás:
O silêncio é cúmplice da violência! Que ama não mata!

O que me irrita em particular, é a atualidade dessas palavras!
O absurdo que é de termos ainda, que falar de violência de gênero - como se estivéssemos na idade da pedra - quando tem tantos problemas e
questões contemporâneas a exigir a nossa ação!

Confira ainda matéria da jornalista Nora Gonzalez sobre o caso neste link:

Caro(a) leitor(a):

Nesta 6ª.feira (20/8), completam-se exatos dez anos do assassinato de Sandra Gomide por Pimenta Neves, seu ex-namorado e ex-chefe nos jornais Gazeta Mercantil e O Estado de S.Paulo. Um crime ainda sem castigo. A convite de J&Cia, a repórter Nora Gonzalez, que trabalhou nos dois jornais por bons anos e conviveu com vários dos personagens que acompanharam de perto a tragédia e o destempero e desequilíbrio de Pimenta Neves, desde que começou a namorar Sandra Gomide, saiu em campo para entrevistar alguns desses colegas. Muitos, por razões compreensíveis, concordaram em falar, mas pediram para que seus nomes não fossem divulgados. Nora reconstrói a tumultuada relação de Pimenta Neves com Sandra desde que se conheceram e começaram a namorar na Gazeta Mercantil e os desdobramentos que o caso veio a ter no ambiente de trabalho, ali mesmo na Gazeta e, em seguida, no Estadão. Mostra a divisão entre os amigos de Pimenta, que a ele se mantiveram fiéis mesmo depois do crime, e os de Sandra. Revela detalhes das atitudes nada convencionais de Pimenta de promover, rebaixar ou demitir Sandra, e que eram tomadas por impulso no auge da raiva – muitas vezes delas se arrependendo depois. Relata ainda desdobramentos jurídicos do caso, trazendo à tona informações que muitos desconhecem, como a de que a pena a ser cumprida por Pimenta, caso a sentença condenatória seja confirmada, não caduca em função da idade avançada dele, como diz a lenda urbana sobre o assunto. Confira a matéria completa neste J&Cia Especial.

Boa leitura!
http://www.jornalistasecia.com.br/edicoes/jornalistasecia757a.pdf?__akacao=303531&__akcnt=6c290a83&__akvkey=7748&utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Jornalistas%26Cia+--+Edi%E7%E3o+757A+--+Especial+Pimenta+Neves

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Machismo adoece e mata! Mulheres ás ruas!


Por Mabel Dias

Manifestações silenciosas. Outras barulhentas. As mulheres vão aos espaços públicos para denunciar as violências que sofremos diariamente. São assassinatos, agressões, maus tratos, violência psicológica, patrimonial, desrespeito, humilhações. Não importa em que parte do mundo, seja na Paraíba ou no Irã, as mulheres continuam a ser vistas como objetos, propriedade dos homens, que ao pequeno sinal de autonomia, usam a violência para poder barrar nossa liberdade.
Foi assim com Eliza Samudio, Vanessa Oliveira, Ariane Thaís, Sakineh Ashtiani, Irís Bezerra, Mércia Nakashima, Wélia Gomes, Maria da Guia da Silva. E com tantas outras companheiras, que ficamos sabendo através da imprensa, e que infelizmente, vão se transformando em números.
E a hora de dar um basta em todo este alto índice de violência contra as mulheres já passou. Porém, a raiz do problema é bem mais profunda e está inserida na forma que a sociedade foi construída, há muitos anos. O patriarcado, o machismo, que o movimento feminista sempre lutou contra e conseguiu vitórias é o grande responsável por toda esta violência que atinge as mulheres. O que as feministas autônomas chamam de feminicídio. A psicóloga Regina Navarro Lins, autora do livro “A cama na varanda”, diz que o sistema patriarcal estendeu o poder que tinha às mulheres e aos homens também. “O homem se sentia dono da mulher, ela era uma propriedade. Ele sempre se sentiu no direito de agredir a mulher e até de matar, mas ele tinha legalmente esse direito de puni-la severamente. Adultério então, nem se fala. Nos países islâmicos, até hoje a mulher é apedrejada e morta. Isso porque bota em risco a questão financeira do marido. O homem ficou obcecado pela exclusividade da mulher porque ele não queria dividir a herança com os outros. O homem ainda é criado para achar que é superior à mulher.”, disse Regina Navarro, em entrevista concedida à jornalista Maíra Kubik Mano.

E o patriarcado está presente em todos os setores da sociedade. Dentro de nossa casa, nos locais de trabalho, nas ruas, na mídia e na música, como o forró e o funk, que reproduzem conceitos que alimentam o machismo. Somos obrigadas/os a ouvir, seja nas ruas ou do apartamento das/os vizinhas/os, músicas de bandas de forró, que em sua grande maioria, divulgam letras de alto teor machista e que incitam a violência contra a mulher. E outras que colocam as mulheres umas contra as outras. A mais recente é da banda Aviões do Forró, que chama uma mulher de “vaca” porque ela “roubou” o seu marido. Parece até uma luta injusta, pois se de um lado lutamos arduamente para acabar com a violência contra a mulher, de outro, vemos um estímulo a esta violência, e ainda com o título de diversão. Nos próprios shows de forró, ouvimos relatos de mulheres que foram agredidas pelos homens: são puxões de cabelo, pegadas na bunda, nos seios, e outras que são agarradas a força para beijá-los. E enquanto isto, as cantoras e cantores destas bandas sorriem e cantam “os seus versos”, que lhes rende milhões e alimentam a violência. Desde a música “Tapinha não dói”, que o movimento feminista conseguiu tirar de circulação através de ação no Ministério Público, até as músicas de Sirano e Sirino às letras de Duquinha, incitam a violência contra a mulher, seja de maneira direta ou indireta. Nos bailes funks, nem precisamos falar os detalhes, pois as músicas e as danças são ainda mais explícitas. Quando não são explicitas neste sentido, falam do amor romântico, que é uma verdadeira cilada para as mulheres, pois pinta uma ilusão e de que tudo deve ser permitido e perdoado, já que se trata de amor (?). E é aí, onde pode começar o círculo de violência.
Mas porque os assassinatos contra as mulheres? Porque tanto ódio? Mais uma vez, a questão da propriedade. Regina Navarro Lins diz que o homem quer matar a mulher porque na cultura patriarcal o menino tem que romper logo cedo com a mãe. “Então, por defesa, ele vai desenvolvendo um comportamento de negação da necessidade dos cuidados maternos. E também como defesa ele desvaloriza a mulher em geral. Aí esse menino cresce, se torna um adulto e aparentemente foge do casamento, das relações afetivas. Cria-se o mito de que ele não quer casar, como se só as mulheres quisessem. Mas quando o homem entra numa relação estável, é impressionante como ele baixa a guarda e se torna um bebê perto da mulher”, explica Regina.
Sabemos que o machismo adoece e mata. E que a cada minuto, a cada hora, uma de nós é vítima ou sobrevivente desta violência. Porém, não agüentamos mais. Sabemos a raiz do problema, sabemos quais caminhos percorrer para denunciar e buscar ajuda, mas, mesmo assim, continuamos a ver nossas companheiras perderem a vida de maneira banal. E daí, o que podemos fazer? Acredito que esta é a grande pergunta: O que podemos fazer para acabar com a violência contra a mulher? E que ela não se torne banal.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Somos todas Eliza Samudio


Por Mabel Dias

"Qual de vocês que é casado não discutiu, que não saiu na mão com a mulher, né cara? Não tem jeito. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher".

Esta é a declaração do goleiro do time carioca Flamengo, Bruno, ao ser perguntado sobre a agressão que outro atleta do time, Adriano, cometeu contra a sua namorada há alguns meses. Para Bruno, “bater em mulher é normal”. Desde o dia 26 de junho, a sociedade brasileira acompanha as investigações da policia mineira na busca da modelo Elisa Samudio, namorada de Bruno e que está desaparecida desde esta data. Elisa teve um filho com Bruno e tentava fazer com que ele reconhecesse a criança e pudesse ajudá-la na educação do filho. Mas, Elisa encontrou ódio e rancor e até o momento, apesar das buscas intensas, seu corpo ainda não foi encontrad7. Um adolescente, que está envolvido no assassinato, deu um depoimento estarrecedor, arrepiante, à policia do Rio de Janeiro esta quarta-feira, 07 de julho, dizendo como Elisa foi atraída para a chácara do goleiro, em Minas e que ela foi brutalmente assassinada por dois amigos de Bruno, Macarrão e Sérgio, que contaram com a ajuda de um terceiro homem. Os detalhes de como Elisa foi morta são muito fortes e seria bom reproduzir aqui no blog para que possamos gravar em nossas mentes e confrontar com a entrevista fria e calculista dada pelo goleiro à imprensa há alguns dias, dizendo que queria que Elisa aparecesse, quando na verdade, ele já havia mandando seus comparsas “livrarem-se do problema”. Mas, não irei fazer isto, pois é chocante demais, revoltante, mais um crime de violência contra a mulher, entre tantos que o SENHORA DAS PALAVRAS vem acompanhando ao longo deste ano. Só aqui na Paraíba foram 27 assassinatos. E, infelizmente, os números crescem a cada dia...
Elisa envolveu-se com Bruno e acreditou que poderia ter um relacionamento tranqüilo e amoroso. Ele já casado. Engravidou e foi obrigada por ele a abortar, tomando remédios, que foram identificados em um exame de urina feito pela perícia. Seu caso ilustra o de tantas mulheres que engravidam de seus parceiros e são por eles obrigadas a abortar, e como neste caso, são assassinadas. Porém são elas que continuam pagando os pecados, vistas como as provocadoras de todo o mal. “Coitados dos homens”.
Ai, que raiva de tudo isto! Que revolta dentro de mim agora ao imaginar todo o desespero de Elisa Samudio quando foi pega por seus covardes assassinos e de tirar-lhe a vida, parecendo que estavam fazendo algo comum. Parecia que era prática comum para eles, e que não era um ser humano que estava ali. Que mente horrível ao tramar tamanha violência, a de deixar uma criança que estava amamentando sem a mãe e saber que ela foi morta a mando de seu pai! Que raiva de saber que tantas outras mulheres neste momento passam por situações como estas e não conseguem sair do círculo de violência que as sufoca, que as mata. Por isto, que temos que estar atentas e unidas para colocar um BASTA em toda esta violência, em todo este feminícidio que acomete milhares de mulheres. Isto precisa parar! E vamos gritar, buscar barrar tudo isto, SEMPRE! O caso de Elisa poderia ter tomado um rumo diferente. Ela poderia ter ouvido as amigas que pediram para ela não ir se encontrar com Bruno. Diálogos encontrados em seu laptop mostram que ela estava insegura em relação as colocações de Bruno, e a ajuda financeira que ele oferecia para ela poder cuidar do filho.
Mas sua esperança de resolver de maneira saudável sua situação fez cair num verdadeiro bote traiçoeiro.
Não quero mais ler nem ter que escrever casos como este, nem que eles se transformem em estatísticas. Porém, sabemos que a realidade mostra que nós mulheres ainda somos “alvos” de violência doméstica e sexual, pois sobrevivemos em uma sociedade mascaradamente machista, e por isto precisamos continuar, nossa luta é contínua. Precisamos usar de nossas vozes, corpo, escrita para mostrar nossa indignação e revolta, e exigir a punição dos culpados, embora, como disse Débora Diniz em seu artigo "Patriarcado da violência", a punição não vai mudar os padrões culturais de opressão.
Dados recentemente revelados pelo Mapa da Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Zangari, com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (Datasus), revelam a ocorrência de 10 assassinatos de mulheres por dia. Entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio — índice de 4,2 assassinadas por 100 mil habitantes. Algumas cidades brasileiras, como Alto Alegre, em Roraima, e Silva Jardim, no Rio de Janeiro, registram índices de homicídio de mulheres perto dos mais altos do mundo.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Comunicadores Polulares organizam Mostra de comunicação alternativa

O Coletivo de Comunicadores Populares, da cidade de Campinas, realiza este mês de julho a Mostra Luta, que vai exibir vídeos, fotografias e poemas com o objetivo de debater as lutas travadas contra a exploração e a opressão capitalista. A mostra acontecerá de forma itinerante em outras cidades do Brasil abrindo espaços para todas e todos que não encontram espaço na grande mídia para apresentar seus trabalhos na área do audiovisual e na literatura alternativa.
Segundo as/os organizadoras/es, a Mostra Luta é mais um instrumento para romper o silêncio imposto pela grande mídia, difundindo a realidade que não passa na TV, rádio, jornais e revistas comerciais, mostrando as lutas contra a exploração, o monopólio da comunicação, a concentração de renda e terra e a mercantilização da cultura e da arte.
As inscrições para participar da Mostra Luta estão abertas até o dia 15 de julho.
Maiores informações no site www.mostraluta.org

terça-feira, 22 de junho de 2010

Copa do Mundo 2010: “somos todos explorados e hipnotizados”

Este ano a Copa do Mundo vai ser um balão de oxigênio (para a crise) após a África do Sul. Como sempre, de quatro em quatro anos, somos obrigados a olhar o mundo à nossa volta como se fosse uma bola de futebol, durante um mês, sob o risco de passar por um estraga-prazeres, chato ou um traidor da pátria se falarmos alguma coisa contrária ao senso comum dos fãs do esporte, da Copa.



Devemos fingir que não sabemos que, ao contrário do mito veiculado no filme Invictus, a África do Sul continua sendo um dos países mais violentos, racistas e desiguais do mundo.



Que a expectativa de vida sul-africana é de 50 anos e a taxa de analfabetismo nos adultos, é pelo menos de 15%! Quase 43% da população vive abaixo da linha da pobreza, o desemprego é oficialmente de 20% (mas algumas estimativas extra-oficiais avançam o número para 40%) e 1,1 milhões de famílias ainda vivem em favelas.



Graças ao silêncio resignado da FIFA, as máfias especializadas no tráfico de seres humanos vão organizar a deportação de milhares de mulheres para serem exploradas sexualmente pelos torcedores, jogadores, cartolas e autoridades, agravando ainda mais o risco de propagação da AIDS num país onde 5,7 milhões de pessoas estão infectadas e 58% delas não têm acesso aos medicamentos.



No país, abusos contra as crianças, o tráfico de pessoas, estupro e maus-tratos são crimes recorrentes. Segundo a Anistia Internacional, as violações dos direitos humanos dos refugiados, dos que pedem asilo político e dos imigrantes são comuns e agressões freqüentes, e em grande escala contra as mulheres. A violência xenófoba é diária, mesmo com a grande mídia neste momento desenvolvendo uma campanha desmentindo isso, para tranqüilizar as multidões que desejam assistir a Copa do Mundo.



Como de costume, a polícia e todo um arsenal de segurança serão implantados durante a Copa a fim de proteger os turistas de gangues e controlar as violências múltiplas das torcidas.

O Chefe da Polícia sul-africana anunciou 45 mil policiais ao redor de cada estádio da Copa. As competições desportivas são sempre boas oportunidades para desenvolver o controle das populações, comercializar e testar novos equipamentos de repressão.



Os cinco novos estádios construídos e os cinco estádios reformados da Copa do Mundo custariam inicialmente mais de um bilhão de euros, mas o custo total de despesas se elevou para mais de 7 bilhões, revelando um gasto muito acima do que o inicialmente planejado.



Por outro lado, os salários dos trabalhadores na construção e reformas dos estádios foram uma miséria. Não à toa aconteceram vários movimentos grevistas reivindicando melhorias salariais. Mas, este dinheirão todo foi parar em algum lugar: nos bolsos da FIFA! Além dos bolsos da corrupção e do superfaturamento, envolvendo empresas e autoridades.



O total das receitas da FIFA no ano de 2009, em conexão com a Copa do Mundo da África 2010: 1,06 bilhões de dólares dos quais 196 milhões de dólares só de benefícios com a internet. Isto sem mencionar os patrocinadores oficiais que estão no ranking dos lucros estratosféricos e que conquistam sempre novos mercados graças às competições desportivas internacionais como esta.



Ademais, o que se esquece quando se apaixonam pela Copa do Mundo é que, o garoto chinês (crianças entre 13 e 17 anos) que fabrica o boneco de pelúcia leopardo “Zakumi”, adotado como mascote da Copa de 2010, trabalha na linha de produção 13 horas por dia por um salário de 2,5 euros (menos de 6 reais). No fundo, nós, trabalhadores e trabalhadoras, somos todos explorados e hipnotizados pelo entretenimento do futebol.



E cada um deverá apoiar a sua bandeira nacional, incluindo as mulheres que estão, infelizmente, cada vez mais envolvidas neste jogo de estúpidos. Aceitar as regras de um jogo mercadológico, violento, desigual e sexista, que reforça a alienação de todos e de todas, não pode e não deve ser entendido como uma conquista social.



Então, e se nós disséssemos stop!? Chega de palhaçadas!



Trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, vaiemos à bandeira e à seleção nacional!



Tradução > Liberdade à Solta



• Texto originalmente escrito por um anarquista francês, mas com pequenas modificações para dar um sentido mais geral de compreensão.



[Última hora]



Uma reportagem do jornal Folha de S. de Paulo de ontem (8 de junho), informou que a 30 km do novíssimo estádio de Green Point, o assentamento improvisado de Blikkiesdorp está separado da Cidade do Cabo pela enorme pista do também novíssimo aeroporto local. Parece feito sob medida para não ser visto pelos milhares de torcedores que rumarão direto do terminal de desembarque para as muitas atrações da cidade mais turística do país da Copa do Mundo. Para seus 3.000 residentes, a Copa é uma maldição. Por causa do evento, dizem, foram removidos das áreas centrais da cidade e jogados no que chamam de "depósito de gente", ou "campo de concentração". O local é cercado por grades. Os moradores vivem em barracos de zinco de 18m2, em que o forro do teto é feito de plástico-bolha e o piso é um adesivo imitando lajotas. As paredes, de tão finas, podem ser cortadas por tesouras, e oferecem proteção mínima contra o frio e a chuva. No verão, o lugar queima.



agência de notícias anarquistas-ana

enamoradas...
as nuvens cinzentas
apagam o sol...

Rodrigo de Souza Leão