segunda-feira, 31 de agosto de 2009

E na Paraíba, a Via Campesina e a Assembléia Popular fazem marcha em direção a João Pessoa


Sob o sol e a chuva, no dia 24/08, após cinco horas de caminhada, os 200 trabalhadores e trabalhadoras da Via Campesina e Assembleia Popular chegaram ao município de Guarabira, cidade-pólo do Brejo paraibano, percorridos mais de 15 km a partir de Alagoinha. A marcha saiu de Campina Grande, na sexta-feira (14), com destino a João Pessoa, e já percorreu oito municípios, totalizando aproximadamente 90 km já percorridos.

A "Marcha Estadual Contra a Crise: Reforma Agrária Já!", vem passando por vários municípios da Paraíba, denunciando a crise, os altos preços da energia elétrica e a situação dos/as atingidos/as pela Barragem de Acauã, além de discutir a importância da Reforma Agrária e denunciando a violência que os trabalhadores/as vêm sofrendo no estado com torturas e homicídios.
Nas cidades aonde a Marcha deve passar, grupos e comunidades esperam ansiosos, para a realização de diversas atividades, dentre elas atos públicos, palestras, assembleias populares, celebrações e festas.
Após a chegada nos alojamentos, improvisados em ginásios, escolas e sindicatos, é possível notar o cansaço e o desgaste dos/as marchantes, o que não desestimula a continuidade da Marcha, que é a mobilização da Jornada por maior tempo de duração em todo o país, de 14 de agosto a 01 de setembro.
A memória e a história de lutadores e lutadoras do povo, ao longo do caminho, são sempre lembradas, com canções e palavras de ordem, além dos banners dos mártires paraibanos, Margarida Maria Alves e João Pedro Teixeira, levados a frente da Marcha, indicando os caminhos que o Povo brasileiro deve trilhar.
A Marcha sai de Guarabira no dia 27, quando prossegue o caminho rumo a Mari, que é o percurso mais extenso da Marcha, cerca de 30 km, que será percorrido ao longo da manhã e da tarde. A luta continua, até João Pessoa ainda faltam mais de 80 km, mas com o espírito de Margarida, o povo diz: "Da luta, eu não fujo"!

Elson Matias

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Em São Gabriel, a luta por assentamentos continua..

NOTA DO MST:São Gabriel, RS, agosto de 2009.

Depois de serem despejados violentamente da prefeitura municipal pela Brigada Militar, com 26 pessoas feridas, quando policiais militares usaram, inclusive, o choque elétrico para torturar, integrantes do MST ocupam área anexa a assentamento para pressionar governos federal, estadual e municipal a atenderem suas demandas.

A ocupação da prefeitura foi uma tentativa de denunciar o descaso com as famílias assentadas no município e reivindicar direitos. Até agosto, 400 crianças permanecem sem escola e outras três morreram por falta de atendimento médico.

http://www.youtube.com/watch?v=VPpGQY8xH2E
Mulheres Rebeldes junto com o MST na luta contra a tortura e a repressão!
Mulheres Rebeldes junto com o MST na luta contra a barbárie!
Mulheres Rebeldes junto com o MST na criação de novas formas de produção, de socialização e de relações!

sábado, 8 de agosto de 2009

O jogo com a vida dos/as outros/as

Que bela medida educativa foi tomada neste sábado, 08, pelas pessoas que são orientadas a “cuidar” dos direitos das crianças e dos adolescentes. Uma mãe que explorava seus dois filhos pequenos em sinais da capital, mandando-os pedir esmolas, foi presa por ordem da promotora da infância e da juventude, Soraya Escorel. Apenas a mulher foi punida. A atitude dos pais é totalmente reprovável, mas em vez de prender a mãe (e quanto ao pai, o que foi feito?) não seria melhor buscar um emprego para ela e mostrar que o que ela fazia não estava correto com os/as filhos/as? Será que a promotoria da infância não teria meios de realizar esta ressocialização da mãe com seus filh@s? Até quando o Judiciário vai agir desta maneira, buscando resolver os problemas sociais sempre de maneira punitiva, repressora? Me lembro bem quando fui na promotoria da Infância de João Pessoa e me deparei com uma cena que acaba com o dia de qualquer um/a: um menino, de aproximadamente 13 anos, algemado (parecia um perigoso bandido!) e sendo conduzido por um policial a uma sala para ser interrogado. Depois de ser interrogado, foi levado de volta a cela onde estava preso. Nestas horas e em tantas outras, onde estão os órgãos de defesa e promoção dos direitos destes seres humanos?
Ah, mas a promotora diria: “estou cumprindo o que diz a lei!” Mas e desde quando os senhores de gravata e as senhoras de terninho em seus escritórios com ar refrigerado sabem o que é a realidade, passando apenas a interpretá-la de acordo com a lei?
O pior é que esta mulher ficará em uma prisão, sabe-se lá por quanto tempo, e @s filh@s em um abrigo ( um de seis anos, outro de três e o mais novo de um ano de idade) sentindo medo, fome e sem nenhum amparo da senhora (in)justiça! Será que a promotora da infância e da juventude sabe as condições de um abrigo? Como se cuida destas crianças nestes lugares? A desigualdade social é a cúmplice destes casos, promovendo mais uma violência que a mãe e o seu marido faziam a estas crianças, mas a sociedade e a senhora (in)justiça agem apenas aplicando a lei, e passam a cometer mais uma violência em vez de buscar resolver a questão de uma maneira mais humana.
Sou apenas uma simples jornalista que usa a escrita para expressar o que sente diante de tanta injustiça que acontece neste mundão! Se estas crianças fossem filhas de alguém da classe alta, com certeza nada disto aconteceria. Mudar o rumo das coisas, como eu gostaria. E é falando, escrevendo que busco dar minha ínfima contribuição.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mulher e Poder

Por Mabel Dias

João Pessoa sediou de 28 a 30 de julho o “Seminário Mulher e Democracia – fortalecendo o mandato de prefeitas e vereadoras”, na Estação Cabo Branco, na praia do Cabo Branco.
O objetivo do seminário, de acordo com suas organizadoras, foi criar uma rede de articulação entre as mulheres parlamentares, prefeitas e vereadoras potencializando o mandato e fortalecendo o intercâmbio com os movimentos de mulheres e organismos de políticas públicas.
O seminário reuniu vereadoras e prefeitas, além de representantes de movimentos sociais e de mulheres da Paraíba e trouxe ainda a Secretária da Mulher de Pernambuco , Cristina Buarque e a coordenadora nacional do projeto Mulher e Democracia, Sílvia Cordeiro.
Um dos temas trabalhados pelo seminário foi “Mulher e Poder”, onde foi apresentado um painel com o histórico da presença da mulher na sociedade, desde a Inquisição até a conquista em poder participar da vida pública, além de ser debatido a necessidade maior das mulheres ocuparem cargos de mando.
Mas, será que a troca de um sexo por outro nas relações de poder mudaria de fato a vida de todas as mulheres ? Estas mudanças alcançariam desde uma juíza a uma lavadeira ? Sabemos que muitas mulheres já ocuparam e ocupam posições de comando na sociedade, seja no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, mas que mudanças, reais, ocorreram na vida das mulheres, principalmente as que estão nas periferias? Será que elas não continuam a mercê de algum/a parlamentar, que faz um discurso todo baseado na condição de vida destas mulheres, para continuar no poder propondo políticas públicas que chegam à conta gotas até elas? (isto quando chegam!) O voto, que é tido como umas das principais conquistas da emancipação feminina, em que alterou a vida das mulheres?
A mídia noticia quase todos os dias, desvios de recursos públicos da educação, saúde, habitação, praticados por governantes que são os responsáveis pela aplicação de tais verbas. A população está de olho, critica, a mídia denuncia, mas são escândalos em cima de escândalos na republiqueta Bra$il e tudo vai se tornando “natural”, “comum”. As mulheres no poder alterariam esta situação radicalmente?
Enquanto anarcofeminista, concordo que é necessário que as mulheres, TODAS, tenham poder de decisão, sobre suas vidas, sobre os destinos da sociedade da qual fazem parte. Que tenham voz e vez próprias, e que ocupem todas as tribunas em busca de liberdade e autonomia. Nós mulheres ainda necessitamos avançar mais, sem dúvida, e precisamos ter poder. Porém, PODER para TODAS, entendem? E não é este poder de se tornar vereadora ou prefeita de que falo. Mulheres em cargos de mando podem até fazer alguma diferença no começo, mas ao final, as práticas continuam se repetindo. E tenho visto isto bem de perto. Até porque a raiz do problema é bem mais profunda. Maria Lacerda de Moura e Emma Goldam, só para citar duas das mais importantes anarcofeministas, já diziam isto. Poder não só para as que estão dentro e fora das faculdades, não só para as que estão nos poderes constituídos, não só as que são chamadas de lideranças. A TODAS, o direito ao poder. As experiências mostram que a mudança de homens por mulheres não tem alterado muito o rumo das coisas. E não é justo, nós que lutamos toda nossa vida por igualdade, querermos oprimir o sexo oposto quando chegarmos ao poder, usando a justificativa que passamos anos, séculos sendo oprimidas. E pior, oprimir outras mulheres que chamamos por tanto tempo de companheiras, apenas por estarmos em cargos de comando. Estamos propondo uma guerra dos sexos ou a igualdade e o respeito? A luta por poder é para podermos dominar o/a outro/a? Para que queremos o poder?
Quero realmente entender todo este discurso, pois na prática ele tem funcionado de uma maneira bem diferente e em vez de libertar as mulheres está construíndo muros e novas amarras para nós mesmas.

"O direito ao voto, a igualdade civil, podem ser reivindicações justas, mas a emancipação real não começa nem nas urnas nem nos tribunais. Começa na alma de cada mulher" - Emma Goldman.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Podes ser traída com um beijo...

Por Mabel Dias

Não sou religiosa. Nem tenho religião. Não gosto da bíblia, por N motivos que não pretendo desfiar aqui neste texto. Mas durante as inúmeras apresentações que falam sobre a vida do personagem Jesus (não sei se ele existiu), as chamadas “Paixões de Cristo”, que existem por ai, uma passagem esta semana me chamou a atenção. A que fala da traição de Jesus por Judas, que beijou o rosto do “messias”, entregando-o aos soldados romanos. Pode ser uma metáfora, pois nunca se comprovou que Jesus e tudo o que lhe aconteceu tenha de fato acontecido, assim como a história da serpente e da maçã, tudo pode ser uma metáfora. Ou não.
Em todo caso, parei para refletir sobre esta traição de alguém que dizia seguir e gostar de verdade de outro, para logo após, por alguns trocados entregar à morte quem ele dizia ser amigo.
Todos/as sabem o final disto tudo. E porque esta estória me chamou a atenção? Porque tenho observado que cada vez mais é difícil se criar laços de amizade e confiança entre as pessoas. Você pensa que por conviver com alguém durante anos, conhece de fato esta pessoa, ao ponto de sair com ela, dormir, sair para se divertir, fazer lanche juntos/as, confidenciar sua vida, enfim, se abrir e confiar que sim, você tem amigo/a. Mas, para nossa triste descoberta as coisas não são bem assim. De repente, vem aquela desilusão gigantesca e BUMMM!, você descobre que as pessoas não eram nada daquilo que você imaginava e que você precisa ser forte para enfrentar as adversidades que apresentam-se a sua frente. Mesmo que venham em uma bandeja, trazidas por um/a amigo/a. Minhas tias já diziam: “Mabel, não se tem amigo/a neste mundo!” E eu ficava indignada porque eu acreditava ter amigos/as sim e que eles/elas nunca me fariam mal ou me entregariam à morte, como Judas fez a Jesus. Calma, nenhum/a amigo/a me entregou à morte! Ainda! Porém, depois fui observando e com as cipuadas que a vida me dava fui percebendo, e aconteceu comigo, de saber que pessoas que estavam ao meu lado não estavam bem ao meu lado assim.
Será que estavam até se conseguir algo em troca? Quem sabe qual o real objetivo das pessoas que se aproximam de você, mesmo com as “melhores das intenções”?Quando minhas tias falavam que não se tem amigos/as, eu ficava até “nóiada”, pois para mim, e é assim até hoje, não se pode viver sozinho/a sem amigos/ as, sem ninguém para conversar, e até contar os seus segredos mais íntimos. Só que com o rumo da vida nestes tempos modernos, fico realmente receosa em me aproximar de alguém que eu queira e tenha afinidades, assim como tenho receio se alguém se aproxima de mim. Até porque estou calejada, entendem?! Um reportagem de Veja, que fala sobre as relações na internet, diz que com as redes sociais on-line (Orkut, facebook, twitter, entre outras) as relações entre as pessoas se tornaram mais superficiais, efêmeras, e as mais afetivas se reduziram. É como se a maioria das relações fosse estratégica.
Parece que o bom mesmo é ter amigos/as virtuais, daqueles/as que falamos no msn, orkut, mandamos emails, todos estes meios tecnológicos modernos de interação entre os seres humanos. Ali parece que temos “amigos/as”. E quando sentirmos falta do calor humano, o que fazer? Vamos ficar testando se aquele calor é realmente verdadeiro? Eu acho que vou testar daqui em diante...
Hoje pela manhã, assistindo a um telejornal, me deparei com a notícia de mais uma mulher que foi agredida covardemente por seu namorado. Ele deu 14 facadas nela e agora está foragido. Tudo deu certo e ela conseguiu sobreviver para contar esta triste história, de conviver mais de 8 anos com este homem, dele chama-la para conversar, dizer que a ama, e supreendê-la com uma faca, tentando mata-la.
O que esperar mais do ser humano? Vamos todos/as virar ermitãs/ões?
Estar no mundo não é nada fácil, você tem que matar um torturador/a a cada dia para poder sobreviver, mas não podemos viver nesta desconfiança, com este mal estar de não conseguir mais nos relacionarmos, interagirmos uns/umas com os/a outros/a, sem pensar que seremos traídos/enganados/as do dia para a noite e recorrer a internet para nos sentirmos queridas/os. O ideal, penso, é ficarmos ligados/as e não deixarmos a nossa vida entregue a mão de outra. Ter um sentimento assim é horrível, não te deixa em paz...porém, ultimamente se queremos sobreviver é desta maneira que devemos ir levando a vida. Ou então cultivarmos nossas/os amigas/os virtuais.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um político, uma farsa

Jânio Lopo

Quando se trata de opinar sobre o caso José Sarney, noto a preocupação da elite brasileira – à frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – em não atacá-lo frontalmente. Essa classe de privilegiados tem tido o cuidado de recomendar o estudo da biografia do acusado antes de mandá-lo à fogueira. Seria até uma atitude louvável das chamadas cabeças coroadas deste país não querer melindrar os personagens cuja história pessoal e política enriqueceram (falo no bom sentido) as páginas heróicas do Brasil. No entanto, sejamos claros e objetivos: o que devemos a Sarney? Qual a sua contribuição efetiva para que tivéssemos um passado digno e reconhecidamente de conquistas internas e externas? Não somos, verdadeiramente, uma Nação séria. Se fôssemos, não deixaríamos que figura como ele alcançasse os primeiros degraus da vida pública de Pindorama. Sarney é uma farsa. Um engodo.

Falo do ponto de vista das ações práticas. Seu passado e seu presente não o deixam mentir nem tampouco esconder o que representou e o que representa para o conjunto da nossa sociedade. Estamos falando de um homem que serviu à ditadura. Foi um dos seus principais porta-vozes. Graças aos tempos nebulosos comandados pelos militares, Sarney transformou-se num dos maiores e mais temidos coronéis do Nordeste. Acumula uma fortuna cuja origem é duvidosa.

O dono da Maranhão, como é conhecido nacionalmente, caiu de para-quedas na Presidência da República graças à inesperada morte de Tancredo Neves, eleito pelo Congresso Nacional. Sua passagem pelo cargo foi desastrosa. Experimentamos uma fase de inflação de praticamente 100 por cento ao mês. Às vésperas das eleições legislativas, o famigerado Plano Sarney zerou artificialmente os índices inflacionários, que explodiram dramaticamente após o pleito em que seu partido, o PMDB, fez todos os governadores dos estados brasileiros, com a exceção de Sergipe, onde venceu o PDS.

Sarney sempre foi um comandado dos grandes grupos econômicos. Era um fantoche nas mãos do seu escudeiro, amigo e ministro das Comunicações à época, Antonio Carlos Magalhães. Não satisfeito com a capitania maranhense, cujo eleitorado já dava sinais de querer livrar-se do donatário, invade o Amapá, tornando-se seu proprietário e por onde elegeu-se pela segunda ou terceira vez senador da República. É essa, em resumo, a sua biografia. Aliás, ia esquecendo: Sarney imortalizou-se ao ingressar (Deus sabe como) na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Irritante é saber que nossos intelectuais ainda não levantaram a voz para condená-lo pelos escândalos que protagoniza hoje (e no passado) no Congresso Nacional. O Sarney de ontem é igualzinho ao Sarney de hoje. Sarney dos conchavos na calada da noite, Sarney dos atos secretos, Sarney preocupado em bons cargos públicos para a família e apaniguados. Que tipo de biografia é essa que temos de reverenciar ou levar em consideração como sugere Lula?

Estamos diante de um estelionato político. Já disse e repito: a esta altura não basta tirar-lhe da presidência do Senado. É imprescindível a cassação do seu mandato enquanto senador e a suspensão, por tempo indeterminado, dos seus direitos políticos, evitando, assim, que ele retorne à vida pública. Só queremos justiça e mais nada. No entanto, como este é um país injusto e desigual por conta dos sarneys que mandam e desmandam nos destinos dos mais fracos e desprotegidos, nem isso (justiça) podemos esperar."

Quando o consumismo é doença

Eles inventaram a palavra marketing. Foram os primeiros a criar cursos de publicidade e a oferecer prêmios para os maiores vendedores. Vivem no país mais consumista do mundo. E, pasmem, năo aguentam mais o assédio da propaganda. O desconforto crescente dos americanos contra a avalanche de telefonemas oferecendo produtos e serviços levou o presidente George W. Bush a declarar guerra. Depois do Afeganistăo e do Iraque, o próximo alvo da sanha bélica do presidente dos Estados Unidos é o... telemarketing.
Foi criado este mês um cadastro nacional contra ligaçơes. Pelo número 1-888-382-1222 ou pela internet ( www.donotcall.gov ) os consumidores que queiram impedir ligaçơes de operadoras de telemarketing poderăo se inscrever gratuitamente. O cadastro năo incluirá as chamadas de políticos, religiosos e organizaçơes filantrópicas. A partir do dia primeiro de outubro, as operadoras que ligarem para os consumidores inscritos no cadastro pagarăo multa no valor de onze mil dólares.
Esta nova lei é apenas um exemplo de como o estilo de vida consumista está sendo cada vez mais questionado em solo americano. No relatório "Perspectivas sobre a Criança e a Mídia", produzido pela Unesco no ano 2000, os pesquisadores advertem que as crianças săo as maiores vítimas dessa overdose de propaganda. O estudo revela que as empresas americanas destinam aproximadamente 12 bilhơes de dólares por ano com anúncios para crianças. Alguém poderá perguntar: por que gastar tudo isso com o público infantil? A resposta virá em números: atualmente as crianças americanas influenciam compras que totalizam 500 bilhơes de dólares. Indefesas diante dos inúmeros recursos utilizados pela publicidade para estimular o consumo - manipulaçăo de sons, imagens e arquétipos que agem sobre o inconsciente - as crianças padecem horrores.
Segundo os pesquisadores da UNESCO, um dos males decorrentes do consumismo infantil é a obesidade, uma doença que já é considerada problema de saúde pública nos Estados Unidos. Os comerciais de doces, biscoitos, guloseimas e redes de fast food que recorrem aos truques da animaçăo gráfica ou ao auxílio luxuoso dos super-heróis da TV - que aparecem bem na funçăo de garotos-propaganda - hipnotizam a garotada.
Um outro problema denunciado no relatório é o stress familiar. Quando quem sustenta a casa é obrigado a dizer "năo" a um apelo consumista que parte do filho, da filha, do companheiro ou companheira, o resultado costuma ser desgastante. Brigas, conflitos, disputas e eventualmente, um desejo tăo grande de ter aquilo que a propaganda exibe, que năo se medem esforços - ou escrúpulos - para alcançar o objetivo. Daí para os pequenos roubos e furtos pode ser um pulo.
A banalizaçăo do consumo remete a um questionamento sobre o papel da mídia na sociedade moderna. Nos primórdios da publicidade, os profissionais do ramo se preocupavam apenas em explicar o que era e para que servia um determinado produto. Hoje, isso mudou bastante, como explica Rolf Jensen, autor do livro, The Dream Society (A sociedade do sonho) : "Os produtos no futuro deverăo apelar para os nossos corações e năo para nossas cabeças. Quando isso acontecer, o modelo que prevalecerá năo será mais o da Sociedade da Informaçăo, mas o da Sociedade dos Sonhos".

O urso canta para Mogli: "O extraordinário é demais"

Há algo de inquietante nessa previsăo. É difícil imaginar um mundo de sonhos, num planeta onde a publicidade alcança indistintamente ricos e pobres (muito mais pobres do que ricos), que săo seduzidos pelos mesmos apelos vorazes de consumo, mas năo respondem da mesma maneira a esses apelos. Em resumo: quem tem dinheiro banca o "sonho", quem năo tem, lida com o fracasso, com a frustraçăo, e com a angústia de viver numa sociedade de consumo que privilegia năo o que se é, mas o que se tem.
Para piorar a situaçăo, mesmo quem tem cacife para bancar o "sonho", muitas vezes mergulha no pesadelo de năo conseguir preencher o vazio existencial que continua incomodando mesmo com a carteira recheada de dinheiro, cartões de crédito e talões de cheque.
A doença do consumismo tem nome e preocupa as autoridades na área de saúde do Brasil: chama-se oneomania, ou consumo compulsivo. Segundo dados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de Săo Paulo, três em cada dez brasileiros, a maioria mulheres, compram compulsivamente. É gente que usufrui apenas o momento da compra, mas năo o produto, que muitas vezes é deixado de lado sem utilidade alguma. A baixa estima e o sentimento de vazio săo constantes. Depois da compra vem a sensaçăo de culpa.
Em uma ótima reportagem sobre o assunto publicada no jornal "O Estado de Minas", a psiquiatra e psicoterapeuta Ana Ester Nogueira Pinto explica: "Uma pessoa normal tem o impulso mas é capaz de resistir. O compulsivo gasta sempre mais do que pode, se prejudicando financeiramente. Normalmente as dívidas dos doentes chegam a cinco ou dez vezes mais do que a renda mensal". Os consumidores compulsivos săo em sua maioria pessoas angustiadas ou ansiosas que tentam preencher os sufocar essa sensaçăo através da compulsăo. O tratamento psicológico é acompanhado do uso de antidepressivos e ansiolíticos. O gerente do Procon em Belo Horizonte, Bruno Burgarelli, denuncia na reportagem a falta de clareza nas informaçơes sobre compras parceladas e os juros das prestaçơes. " A publicidade enganosa e abusiva acaba induzindo ao erro, seja por açăo ou omissăo". Vem da terra do Tio Sam - templo sagrado do consumismo - uma bela liçăo em forma de música. Na trilha sonora do desenho animado "Mogli - o menino lobo" (Disney, 1967), o urso Baloo, responsável pela educaçăo de Mogli numa selva repleta de predadores, cantarolava a música "Bare Necessites", que trazia o seguinte refrăo traduzido assim para o português : "Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais". Vivemos num planeta que oferece o necessário para todos. Se ainda assim năo conseguimos ser felizes, talvez a culpa seja nossa.

André Trigueiro, jornalista, é redator e apresentador do Jornal das Dez, da Globonews, desde 1996. Na Rádio Viva Rio AM ( 1180 kwz ), Trigueiro apresenta o programa Conexăo Verde, de segunda a sexta. Nele, aborda temas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O jornalista é pós-graduado em Meio Ambiente pela MEB COPPE/UFRJ (2001).Artigo publicado originalmente em Eco Pop